A importância do ensino de Ética Animal nos cursos de ciências agrárias

A discussão sobre a expansão e inclusão do critério da consideração moral dos seres vivos para serem sujeitos de direitos é um dos assuntos atuais entre teóricos da Academia, sendo essa uma discussão necessária para ser debatida nas salas de aula durante a graduação.

Pesquisas sobre métodos alternativos ao uso de animais são realizadas atualmente, porém os antiquados métodos de pesquisa ainda não são questionados como deveriam e nem as pesquisas sobre métodos substitutivos financeiramente incentivados. Ao adentrar em uma graduação da área de Ciências Agrárias e da Saúde, a maioria dos cursos contempla logo no primeiro período uma disciplina ou atividade a qual expõe o ‘correto’ manejo de cobaias e os demais procedimentos laboratoriais. Esse método retrógrado está posto para os laboratórios acadêmicos tal como um dogma para a igreja, pois ao tentar introduzir uma discussão ou questionar disciplinas que se utilizam de animais não humanos há um grande furor e logo é feita uma manobra para encerrar tal assunto (TRÉZ e NAKADA, 2008), deixando os estudantes sem resposta, quando não os ridicularizando. Quando há espaço para discussão e formação sobre tal, o tema tende a se restringir às disciplinas como Etologia, Bem-Estar Animal ou Bioética. Portanto, se faz necessário disciplinas relacionadas ao tema na grade curricular dos cursos, porém somente essa oferta também não garante a presença do debate aprofundado. 

Por mais que os estudantes não participem de espaços de formação sobre a ética animal durante a graduação, muitos já ingressam no curso com alguma opinião e percepção relacionada ao ponto. Em uma pesquisa realizada em 2010, obtêm-se dados que dentre os calouros de Ciências Biológicas entrevistados, 50% teve como motivação para a escolha do curso de graduação a pesquisa utilizando animais (MELGAÇO et al, 2010). Um dado desta mesma pesquisa que chama atenção é relacionado à conduta dos docentes que realizam experimentação animal durante atividades didáticas. Segundo os estudantes, 73% desses professores não se preocupa em explicar sobre as implicações éticas e legais a respeito da prática que usa animais. E que quando solicitadas as orientações recebiam respostas que tal direcionamento não era necessário (MELGAÇO et al, 2010). E em outra pesquisa anterior, os estudantes apontaram que raramente as discussões sobre o uso dos animais no ensino e na pesquisa são feitas (TRÉZ, 2008).

Os estudantes educados por esse modelo – sem contestações ou alternativas apresentadas – tendem a dar continuidade, ou seja, se um dia se tornarem professores, replicarão o mesmo modelo aprendido gerando um ciclo anacrônico e despolitizado (SINGER, 2004). No caso de se tornarem pesquisadores ou adentrarem o mercado de trabalho como produtores continuarão a instrumentalizar os animais não humanos contribuindo para a morte de milhares de seres. Para que se atinja o objetivo filosófico dessa temática é necessário falar em ética e direitos dos animais não só em uma disciplina de Bioética ou de Bem-estar Animal, mas também nas aulas de Anatomia Comparada, de Fisiologia, de Zoologia… e principalmente nas práticas de manejo em campo. Paulo Freire nos elucidou que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”, portanto, através de uma mudança curricular em uma Universidade pode-se gerar uma mudança na sociedade ou, ao menos, promover o debate sobre os atuais paradigmas morais para sejam repensados e a sociedade se torne cada vez mais justa e inclusiva.

Bibliografia:

Melgaço, I.C.; Meirelles R.M.S.; Castro, H.C. O ENSINO DE CIÊNCIAS E A EXPERIMENTAÇÃO ANIMAL: AS CONCEPÇÕES DE CALOUROS DAS CIÊNCIAS BIOLÓGICAS SOBRE O USO DE ANIMAIS EM PRÁTICAS DIDÁTICO-CIENTÍFICAS. Rev. REMPEC – Ensino, Saúde e Ambiente, v.3 n 2 p.167-179, Agosto 2010. 

Singer, P. Libertação animal. Lugano; São Paulo, 2004

TREZ, T. A.; NAKADA, J. L. Percepções Acerca da Experimentação Animal Como um Indicador do Paradigma Antropocêntrico-Especista entre Professores e Discentes de Ciências Biológicas da UNIFAL-MG. Alexandria Revista de Educação em Ciência e Tecnologia. v. 1,n.3, p.3-28. Nov. 2008.

TRÉZ, T.(org). Instrumento Animal – O uso prejudicial de animais no ensino superior. Bauru, São Paulo: Canal 6, 2008.

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